25 agosto 2017

é tarde

Foi no processo de reconhecimento da Associação Joãozinho como IPSS que ocorreu um evento, ao qual na altura não dei qualquer importância, mas que viria a revelar-se decisivo para o desenvolvimento da obra.

O processo de reconhecimento era conduzido, por parte da Associação Joãozinho, no Porto, pela Dra. Fátima Pereira, vogal da direcção, e também jurista, e por parte do Ministério da Segurança Social, em Lisboa,  por parte do Dr. Rui Santos.

Era excelente a relação de trabalho entre ambos e eu ia sendo informado que tudo corria sobre rodas. Só surgiu um problema que o Dr. Rui Santos transmitiu e explicou à Dra. Fátima Pereira. Tinha a ver com a qualidade de associados dos cinco administradores do HSJ e do próprio HSJ enquanto pessoa colectiva, e também com a sua participação em lugares de direcção.

Na realidade, o Professor António Ferreira, presidente do Hospital, e o Dr. João Oliveira, número dois da administração, eram directores não executivos, e a Dra. Ana Maria Príncipe, assessora do presidente, era mesmo vogal executiva da direcção.

Ora a lei das IPSS's tinha sido recentemente alterada porque muitas instituições públicas criavam IPSS's como verdadeiros sacos azuis para aí colocarem os seus próprios executivos e os seus boys, recorrendo a fundos, frequentemente europeus, que depois utilizavam, em grande medida para se pagarem a si próprios, directamente ou em despesas,  numa altura em que os salários da função pública estavam congelados e até tinham sido reduzidos.

A conclusão era a de que  todos os membros da administração do HSJ tinham de sair da Associação e dos lugares de direcção.

A Dra. Fátima Pereira foi então junto do HSJ e, com o Dr. João Oliveira, tratou do assunto, que foi inicialmente recebido com alguma surpresa, e só resolvido depois de ela lhe enviar a lei.

De uma assentada, saíam de sócios os cinco administradores do HSJ e o próprio HSJ, e da direcção o Professor António Ferreira, o Dr. João Oliveira e a Dra. Ana Maria Príncipe. Para o lugar desta última, entrou a Dra. Susana Almeida e a direcção passou a ser composta por três elementos apenas, todos executivos.

Para substituir os sócios excluídos, e dada a pressa em fazer avançar o processo junto do Ministério da Segurança Social, a Dra. Fátima Pereira e eu próprio pedimos a pessoas das nossas relações, e que sabiam a obra que estávamos a fazer, que se fizessem sócias da Associação.

A partir deste momento, a Associação Joãozinho passava a ser totalmente independente do Hospital de S. João, cumprindo a letra e o espírito da alteração legislativa, e não havia maneira de o Hospital de S. João ter qualquer interferência nela.

Estávamos em Janeiro de 2015, a obra iria ser começada dentro de mês e meio. Sem que eu pudesse antecipar na altura, a partir deste momento as relações entre o Hospital de S. João e a Associação Joãozinho iriam tornar-se muito difíceis, e a obra do Joãozinho preparava-se para encontrar sérios obstáculos no caminho.

Porém, um homem apaixonado aos sessenta anos é muito pior do que aos vinte. Só vê o que lhe interessa. Não apenas não dei qualquer importância ao assunto, como continuei entusiasmado a trabalhar para o Joãozinho saltando os obstáculos, à medida que iam surgindo, como um atleta olímpico salta as barreiras com os olhos fixos na meta.

Foram necessários quase seis meses para eu cair na realidade. Foi no início do Verão, e foi necessário uma pessoa sentar-se em frente a mim - uma mulher, claro - olhar-me nos olhos e perguntar-me:

-Sabe o que se diz no Hospital?...

-Não...

-"Temos de pôr o Pedro Arroja fora da Associação..."

Creio que fiquei atónito, em silêncio, julgo que baixei os olhos, mas lembro-me de, mais tarde,  ter dito para os meus próprios botões: "Agora...é tarde...".


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