10 agosto 2017

adoptivo

Nesta primeira série de visitas, eu não ia pedir dinheiro. Não precisava dele porque a obra só começaria no ano seguinte. Além disso, as multinacionais não têm dinheiro na gaveta que possam dar assim à vista. É preciso estar orçamentado. O meu propósito era apresentar o Projecto - que várias empresas já conheciam e até já tinham contribuído para ele - e preparar o futuro.

De todas as visitas que fiz guardei um pequeno relatório, mais propriamente umas notas, para me lembrar do teor da conversa e para me recordar das pessoas com quem falei, quando mais tarde tivesse de voltar ao contacto. Essas notas dariam um livro - um livro dedicado a uma mulher - e podem bem vir a ser o tema do próximo. Já tenho a mulher.

Em todos os relatórios dava uma nota para classificar a reunião. Quando a amostra já era suficientemente significativa notei que a nota mais frequente era "Excelente". E quando tinha uma mulher pela frente, "Excelente" era mesmo a nota invariável.

Naquele dia 10 de Março, eu tinha uma mulher a receber-me, mas estava acompanhada por dois homens, um australiano, que era o director-geral e um português, que era o director financeiro; ela própria era portuguesa e a  directora de marketing. Eu visitava nesse dia uma grande multinacional suíça nos arredores de Lisboa. O Projecto Joãozinho era conhecido na empresa.

No final da reunião, fiquei a conversar com o director-geral. Interessava-me a opinião dele acerca de Portugal, já que eu tinha vivido num país que era irmão-gémeo da Austrália. Ele resumiu tudo em poucas palavras. Portugal era um excelente país. O grande problema era a Justiça: "Any crook gets away from Justice".

Meia-hora antes, durante a reunião, eu tinha vivido o momento mais tocante de todas as visitas que fiz ou viria a fazer. O director-geral sentou-se no topo da mesa; à sua esquerda, o director-financeiro e depois eu; à sua direita, de frente para mim, sentou-se a directora de marketing.

Comecei a falar, a cabeça voltada para a direita na direcção do director-geral. Ocasionalmente, endireitava a cabeça e tinha a directora de marketing pela frente. Sensivelmente a meio da reunião, foi ela que me começou a prender a atenção. Escutava-me e olhava para mim de uma maneira que nunca ninguém tinha olhado.

Prossegui a minha apresentação, mas agora os meus olhos giravam constantemente entre ela e o director-geral, que presidia à reunião. Ela continuava com os olhos muito abertos  e fixos em mim - parecia surpresa que existia neles -,  o rosto imobilizado num ligeiro sorriso. Continuei a falar enquanto comecei a sentir que, se aquela senhora tivesse ali 20 milhões de euros na carteira, ela iria darmos para eu ir fazer a obra do Joãozinho.

Era encantamento que existia na face dela. Foi nessa altura que interrompi a conversa sobre o Joãozinho para lhe perguntar:

-A senhora tem filhos?...

Ela respondeu-me:

-Tenho um ... adoptivo...

Num instante, compreendi tudo.

Nesse dia regressei ao Porto algo combalido, mas ainda mais determinado. Se eu  estava a fazer aquela obra por várias e poderosas razões - todas elas convergindo numa só - eu iria agora fazê-la por mais uma.

Por aquela senhora também, em representação de todas as mulheres que um dia desejaram ter crianças, mas que nunca as conseguiram ter.

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